sábado, 9 de junho de 2007

Para que desses um nome à exactidão do instante...


O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

[...]

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

... vestida de mar...


Alfonsina Y El Mar


(Ariel Ramirez - Felix Luna)

Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

(A homenagem do grande Ariel Ramirez à poeta argentina Alfonsina Storni, que literalmente morreu de amor, de amar)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

... bebo-te... como a água que rebenta das fontes...

BEBER-TE...

aqui tens a minha sede. as pedras dos rios
somente satisfazem a urgência maior
e nada diz de ti esse líquido que a sede sacia:
queria beber-te nas ondas do teu ciúme
e despedaçar-me no desejo dos teus lábios
queria alcançar a nuvem e colher a rebeldia
das gotas exaltantes dos teus beijos
queria a ribeira da tua pele como a água
que rebenta das fontes
e unidos na mesma sede alcançar o estertor
na cintilação dos mesmos horizontes
queria o incêndio escrito na mesma sede
e morrer no martírio de doçuras de amante

aqui tens a minha sede: fogo e água da tua boca
ardendo no azul de águas murmurantes.

Bernadete Costa

terça-feira, 5 de junho de 2007

..num abismo cheio de nada...


"Suavemente, deslizei entre os lençois e comecei a acariciá-la com a nostalgia, a tristeza e a felicidade com que um ancião acariciaria a criança que fora um dia. A mulher, longe de opor alguma resistência, deixava-se tocar com uma passividade feroz, repleta de gemidos que pareciam sair de todas as aberturas do seu corpo. Esta húmida como as paredes de uma gruta, suave, modelável e morna. Explorei, ansioso, cada ponto do seu corpo, e, invadido pelo seu cheiro, pelo seu toque, pela sua ternura, pelos seus humores, arrastei-a para o interior do roupeiro, fechei a porta e fundimo-nos num abismo fora de qualquer compreensão, cheio de nada, excepto do seu grito e do meu, que encheu o roupeiro e provocou o esvoaçar – sinistro e salvador – das roupas que o móvel continha.

Das nossas bocas de trevas não saiu uma palavra, os nossos olhos não chegaram a tocar o que viam as nossas mãos, mas os nossos corpos formaram arquitecturas impossíveis, sonhos, acoplamentos em que a sua necessidade e a minha ficaram unidas para sempre.

Quando o desejo enfraqueceu, surgiu o carinho, como surge o perfume de uma pétala apertada entre os dedos."

Juan José Millás, "Uma falta íntima" (excerto)

sábado, 2 de junho de 2007

Que amor não me engana...


Que amor não me engana
com a sua brandura
se de antiga chama
mal vive a amargura

Duma mancha negra
duma pedra fria
que amor não se entrega
na noite vazia

E as vozes embarcam
num silêncio aflito
quanto mais se apartam
mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
noite marinheira
vem devagarinho
para a minha beira

Em novas coutadas
junto de uma hera
nascem flores vermelhas
pela Primavera

Assim tu souberas
irmã cotovia
dizer-me se esperas
p'lo nascer do dia


José Afonso

sexta-feira, 1 de junho de 2007

... Até ao dia em que nada ficou como era...


Cantiga

É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus lábios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.

Nuno Júdice

Eros de Passagem


1.
Apelo da manhã perdido em flor:
ave seria se não fosse ardor.

2.
Pelo sabor da água reconheço
a ternura e os flancos do verão.

3.
Um corpo brilha nu para o desejo
dançar na luz a pique das areias.

4.
Nas águas rumorosas da memória
contigo acabo agora de nascer.

5.
O vento inclina as hastes à luz dura:
a terra está próxima e madura.

Eugénio de Andrade