terça-feira, 9 de outubro de 2007

habito este país de água por engano



escrevo-te a sentir tudo isto
e num momento de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de
prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurados junto
ao fogo
e deambular trêmulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco
morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de
romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar


Al Berto

sábado, 6 de outubro de 2007

Por gosto e homenagem

Foto: Luís Ferrito

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.


Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.


Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assim negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,


começa de servir outros sete anos
dizendo: "Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida".

Luís Vaz de Camões

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

... por instinto e uma certa paixão...


s
omos uma árvore nem sempre

pensada. vimos uns dos outros como

se fossemos terra uns dos outros, terra e

sangue, ágil sobre o tempo por

instinto e uma certa paixão. somos

uma árvore nem sempre erguida.

temo-nos uns aos outros como

causas e efeitos em busca dos

caminhos e uma certa paixão.

somos uma árvore nem sempre

razoável. magoamo-nos uns aos

outros como necessitados de coisas

más sem grandes razões e de

uma certa paixão

Valter Hugo Mãe

sábado, 22 de setembro de 2007

O que me dizes esconde-se no fundo que não vejo...


Não preciso de perguntar o que
me dizem os teus olhos quando
os olho; nem te olho para que,
com os teus olhos, um só olhar

tudo me diga. O que me dizes
esconde-se no fundo que não vejo
quando me olhas, para que
tudo o que vejo me mostre

o fundo dos teus olhos. E
quando te peço que os feches, para
que um outro fundo se abra,

o que me dizes é o que
não sei se os teus olhos dizem,
quando o dizes nos teus olhos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Talvez o mais querido entre os meus Kurosawas




- Por que voltar? Outros virão - e, se encontrarem madeira seca e comida, não morrerão... (Dersu Uzala)

sábado, 11 de agosto de 2007

... que não ilumina, apenas brilha...

Foto: Jeremy Dorteen


Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena, Fidelidade (1958)

domingo, 5 de agosto de 2007

Segundo Eugénio

Foto: Dick Floris


O amor

é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz

Eugénio de Andrade